Minha amiga Áurea, numa conversa informal, falava sobre cair. Em seguida, refletindo sobre queda, minha memória me levou ao dia em que, por impulso, comprei uma bicicleta nova. Me lembrei que não se tratava de uma necessidade, mas uma tentativa de me distrair durante o feriado de Independência e, de ocupar o tempo que iria passar sozinha.
Na verdade eu precisava silenciar algo em mim que eu ainda não sabia nomear.
A bicicleta estava intacta, recém tirada da caixa, e eu saí para pedalar pela rua de minha casa, com o coração aberto ao vento e à luz morna de um sol de primavera.
A cidade estava vazia, era um bom dia para estar ao ar livre. Havia prazer naquele gesto, mas, ao mesmo tempo, algo em mim permanecia inquieto, como uma nostalgia discreta, talvez um medo silencioso, talvez apenas a sensação de solidão.
Não percorri sequer um quilômetro. A queda foi repentina. Meu corpo foi lançado ao chão com tamanha força que a pele dos joelhos e dos cotovelos ardeu e se abriu em sangue.
Por alguns segundos, temi ter quebrado o pé, mas, por sorte, não bati a cabeça. Instintivamente, ao perceber o desequilíbrio, meu corpo buscou direcionar o impacto para onde parecia conseguir suportar.
Fiquei ali, estendida no chão, sentindo o impacto não apenas no corpo, mas também nas emoções. A rua estava vazia por causa do feriado, e não havia ninguém para me ajudar. Era como se aquele tombo exigisse uma pausa, um convite silencioso para escutar a voz que ecoava dentro de mim.
Senti-me frágil e profundamente só. Diante disso, não me restou outra escolha senão suportar a dor da queda, reunir forças e me levantar devagar. Respirei fundo e, pouco a pouco, fui me tornando mais leve, permitindo que alguma verdade divina se revelasse em minha mente e me trouxesse a resposta que eu precisava aprender com aquele acidente. Então, em silêncio surgiu clara em minha mente a palavra que o Apóstolo Paulo escreveu em sua carta aos Coríntios:
“E quando estou fraco, então é que sou forte.”
Aquela frase não surgiu para aliviar, mas para despertar. Foi um chamado à consciência, um convite sutil para sair do lugar da vitimização e assumir a responsabilidade pelo que eu sentia, pela dispersão dos meus pensamentos e pela falta de foco que, de alguma forma, contribuiu para a queda.
Levantei-me, ainda mancando e com muita dor, peguei minha bicicleta e segui caminhando , empurrando-a, segurando o choro, passo a passo em direção à minha casa, que estava a umas três quadras dali.
Realmente agora posso falar do entendimento que tive, simples e profundo, sobre aquela fase de minha vida. “A gente não se quebra porque cai. Cai porque já está quebrado”.
E era a mais pura verdade de minha alma. Havia algo quebrado dentro de mim. A queda não foi a causa, foi o espelho. O tombo apenas revelou o que eu vinha carregando em silêncio.
Havia um cansaço profundo em mim, um medo contido, uma fragilidade que pedia atenção e cuidado, um estado nostálgico, uma necessidade de mudança que eu nem sabia por onde começar.
Eu tinha deixado de olhar para dentro de mim, estava buscando fora, algo que pudesse preencher um vazio que eu mesma não sabia nomear, nem compreender de onde vinha.
Com a queda, uma nova percepção se instalou. Não veio como euforia, mas como uma certeza tranquila.
Compreendi que nunca fui indestrutível nem frágil, mas, fui sempre sustentada pelo Espírito de Deus. Era como se a vida pulsasse para além das batidas do meu coração, manifestando-se em uma força silenciosa que confortava a minha alma.
Foi essa presença que me permitiu atravessar o acidente com firmeza interior, levantar-me com serenidade e seguir o caminho de volta para casa, empurrando vagarosamente a bicicleta, com o coração tomado por gratidão por estar viva e por ainda poder caminhar.
Assim, compreendi que o equilíbrio emocional nasce quando reconhecemos a fortaleza que habita em nós e escolhemos acessá-la. Não é uma força que nega a dor, mas uma força consciente, que a encara com lucidez e assume o comando da própria vida. É a capacidade de olhar com verdade para tudo o que dói e para tudo o que está quebrado em nossos pensamentos e sentimentos, sem fugir, sem se perder no sofrimento, sem se abandonar no processo e sem se vitimizar, porque quem desperta para essa força interior entende que jamais caminha sozinho na jornada da vida.
A verdadeira sabedoria que tirei dessa experiência foi entender que nada externo a nós é garantido. As coisas boas podem ser incertas e, muitas vezes, efêmeras.
Assim como a bicicleta nova que saiu da caixa perfeita e, minutos depois do acidente, estava desalinhada, amassada e com a pintura marcada, também as conquistas da vida podem mudar em um instante. Por isso, não é o que possuímos que nos sustenta, mas a força interior que desenvolvemos, pois tudo o que pode ser conquistado também pode ser perdido.
Assim, amadurecer emocionalmente é discernir quando a vida nos pede firmeza e quando nos pede movimento. Há situações em que nos cabe resistir à dor, respirar com consciência e seguir em frente.
E há outras em que nos cabe mudar, escolher diferente, sair do papel de vítima e recomeçar de forma consciente.
Por isso, posso afirmar que a verdadeira força não está em nunca cair, mas em reconhecer as crenças, emoções e pensamentos desarmoniosos que enfraquece a nossa fé impedindo nossa evolução e felicidade.
É esse reconhecimento que nos permite levantar e, em silêncio, redirecionar a consciência para a luz e para a vida, percebendo a presença do Espírito de Deus que nos sustenta e supre nossas necessidades. Ainda que não haja mãos humanas para nos erguer, por meio da promessa de Jesus Cristo, o Espírito Santo permanece conosco, instruindo-nos com mansidão, amparando-nos com cuidado e colocando-nos de pé após cada queda.
E assim compreendo que a queda não é o que nos quebra. Ela apenas revela o que já estava ferido por dentro, esperando ser acolhido, curado e transformado. Porque a gente não se quebra porque cai. Cai porque já está quebrado.
Respostas de 6
Nossa que incrível! Maravilhosa reflexão e eu li exatamente agora aqui no meu cantinho refletindo sobre algumas coisas que preciso mudar e enteder sobre algumas situações…..Obrigada Beatriz!
Reflexão linda, me trouxe acalanto para o coração! Obrigado, Beatriz!!!
Nossa! Que reflexão maravilhosa! Gostei.
Não é apenas o mundo (planeta) que está passando por mudanças profundas. Nós também estamos passando por mudanças profundas, principalmente em nossas emoções e percepções interiores.
É exatamente isso. As mudanças internas acontecem antes de qualquer queda externa. Crescemos justamente nesses ajustes profundos que acontecem dentro de nós. Obrigada por compartilhar sua visão.
Realmente querida amiga, Bia
Às vezes temos que cair pra conseguir depois levantar. O Espírito de Deus, a Vida que pulsa em nós, pede isto
Concordo. A queda, nos realinha. A vida nos faz parar para enxergar o que ignoramos. E é nesse silêncio que a força espiritual nos levanta de um jeito novo. Obrigada por compartilhar.